Em Loriga, na Serra da Estrela, o cômbaro é um muro tendencialmente de granito que sustenta os famosos socalcos que ladeiam a vila.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Data in data out...From Dennis Hlynsky.
Em Loriga, quando as andorinhas partem, todos nós ficamos mais tristes.
O professor Dennis Hlynsky da Rhode Island School of Design fez este vídeo 'lento'
sobre o voo das aves.
data in data out from Dennis Hlynsky on Vimeo.
O professor Dennis Hlynsky da Rhode Island School of Design fez este vídeo 'lento'
sobre o voo das aves.
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
sábado, 25 de janeiro de 2014
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Uma Maria e um José
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| Fotografia de Rita Pato |
UMA MARIA E UM JOSÉ
Ele adorava-a. Ela adorava-o. Ele sentia que não podia viver sem ela e ela sem ele. Ela era o ar que respirava. Dormia a pensar nela e acordava com ela nos seus pensamentos. Declarou-se e ela disse ‘sim’. Namoraram e ele não descansou enquanto não conheceu cada sinal, marca distintiva e expressão dela. Ela imaginava-o sempre de mão dada e como pai dos filhos que sempre desejou.
Era um homem com futuro. Militar que conhecia marechais e que depressa seria um advogado promissor com escritório famoso e com ministros entre os amigos. O seu nome deixou de ser José e passou a ser apenas tratado pelo apelido. Arranjou casa num sítio famoso e depressa nasceu o primeiro filho, mas a esposa foi trabalhar após o período de aleitamento e isso não o deixou descansado. Esperava-a sempre à saída e levava-a sempre ao emprego. Era a sua jóia. Era a sua razão de viver. Era perfeita, com a voz perfeita, a altura perfeita, os olhos perfeitos e até sabia tocar e falar francês como o Gato Maltez. Fazia-lhe festas como se fazem a quem se ama e beijava exageradamente. Quando ela cuidava do filho, ele tinha ciúmes. Quando ela ficava a trabalhar até mais tarde, ele perdia litros de suor a imaginar com quem estaria naquela secção onde só trabalhavam senhoras. O trabalho dela feria-o, pois não podia estar ao pé dela. Tinha ciúmes dos irmãos e dos pais dela. Aquela harmonia familiar assustava-a a sua harmonia matrimonial. Chocava-o não saber o que ela falava dele à família. Estar por horas longe dela era assustador, torturante que causava-lhe suores frios e estimulava a imaginação para lá dos limites. Um dia desconfiou de um olhar inocente de um primo que foi lá a casa deixar uns queijos e uns bolos típicos da terra. Encontrou-o lá em risos com a esposa. Pouco se importara que fosse primo, pois toda a gente sabe que os primos são os piores amigos das esposas. Amuou dias e um dia saiu-lhe tudo de uma vez pela boca, enquanto as pálidas bochechas mudavam para encarnado vivo. Ela argumentou e ele bateu-lhe com as costas da mão. Partiu-lhe os óculos e ela não chorou e ele ficou indignado. Sentia que ela ainda estava a mostrar que era mais forte que ele. Horrível.
Ele saiu de casa. Como é que ela se atrevia a olhá-lo daquela maneira? Ele que tanto a amava. Ele que era o pai dos filhos dela e que tanto trabalhava para aquela família. Ela que teimava em não deixar de trabalhar.
Depois voltou para casa e procurou ter uma conversa séria e inteligente com ela. Ele tinha várias licenciaturas e apesar de ela ser menos esperta, certamente que bem conversados tudo entraria nos eixos. Mas na semana seguinte ela parecia que não queria aprender e voltou a apanhar depois de ter dito que ia a casa de uma irmã e ninguém ter atendido o telefone, quando ele tentou ligar para lá da esquina. Era uma desculpa esfarrapada aquela de que não quiseram atender porque estavam a matar saudades. Portanto, apanhou e apanharia sempre que não tentasse compreender a vida simples do convívio familiar. Um dia de muito apanhar e de tão negra ter ficado, a família nunca mais a deixou ir para casa.
Ela sobreviveu mais vinte anos sem ele, mas muitas mulheres não sobrevivem a tão grandes amores.
"Eu sei, mas não devia", de Marina Colasanti
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| Fotografia de João Carreira, Carcavelos, 2014 |
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
domingo, 5 de janeiro de 2014
Uma Outra Visão Sobre a Assembleia da República Portuguesa
A Assembleia da República Portuguesa vista com um Ecossistema Politico-Empresarial em:
sábado, 4 de janeiro de 2014
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
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